Por: Eliane Olinda Porto Brosso Joseane Di Bernardi da Luz



Este trabalho é resultado de estudos sobre a representação social do alcoolismo evidenciado nos atendimentos do Serviço Social, realizado no curso de aperfeiçoamento de dependência química. Este estudo é uma pesquisa bibliográfi ca e teve como objeti vo resgatar essa representação social para obter mais conhecimentos sobre o álcool e, assim, respaldar a intervenção do Serviço Social.

Palavras-chave: Serviço Social, alcoolismo, representação social.


Introdução


Desde os tempos mais remotos de nossa história, o homem usa o álcool como meio para extravasar sua euforia, celebrar festi vidades, dar cunho solene a rituais religiosos e proporcionar alívio ao seu estresse emocional imediato ou contí nuo. O uso abusivo, porém, pode provocar tanto desgraças quanto dependência, conhecida como “alcoolismo”.

Na literatura pesquisada sobre essa questão, o álcool aparece como um fator signifi cati vo na violência domésti ca, por isso se considerou importante resgatar a representação social do alcoolismo, dando ênfase nas relações intrafamiliares, por ser a família objeto de intervenção do Serviço Social.

O interesse em se estudar o tema da representação social surgiu quando começamos a perceber, nos atendimentos realizados pelo Serviço Social no Insti tuto de Cardiologia de Santa Catarina, relatos de confl itos familiares associados à condição do uso abusivo de álcool. Essa constatação gerou uma inquietação que nos levou ao aprofundamento 25 sobre o assunto.

Entendemos por representação social a forma pela qual a pessoa dá significado, entendimento e explicação a determinadas situações de sua vida, por meio do processo de interação com o seu mundo exterior. É a maneira pela qual as pessoas captam e tentam resolver seus problemas, baseadas no contexto histórico em que vivem. Entendemos que as representações sociais são influenciadas pelo mundo social, são individuais, como também coletivas, uma vez que o ser humano está inserido em uma sociedade em relação permanente e constante com outros indivíduos.

O objetivo foi resgatar as representações sociais sobre alcoolismo para obter maiores conhecimentos sobre o tema e, assim, respaldar a intervenção do Serviço Social.


O alcoolismo e suas repercussões


A descoberta do álcool é ainda desconhecida. As primeiras informações sobre o seu uso datam de 6000 a.C. O termo “álcool” é de origem árabe e, etimologicamente, quer dizer coisa sutil, enganadora.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) há anos considera o alcoolismo como doença e o alcoolista como doente. Embora o alcoolismo seja uma doença que traz graves consequências ao psíquico, ao físico e ao social, ainda é muito difícil de diagnosticá-lo. Masur (1984, p. 27) afirma que

[...] não existe um fator que determine a causa do alcoolismo, o que se encontra são diferentes fatores de vulnerabilidade, [em que] todos que usam bebidas alcoólicas estão sujeitos a desenvolver o alcoolismo, dependendo apenas de sua interação com os fatores de vulnerabilidade.

Conforme D’Albuquerque e Silva (1990), o diagnóstico do alcoolismo, em geral, é impreciso, frequentemente subestimado e feito, via de regra, quando o paciente já está em estágio avançado de dependência.

Essa situação pode ser explicada por diversos motivos, um deles cabe ao próprio alcoolista que geralmente procura o atendimento 26 médico, queixando-se de outros sintomas e nunca da doença. Outro motivo da dificuldade do diagnóstico do alcoolismo é atribuído aos próprios técnicos da Saúde, que muitas vezes não investigam sobre o uso do álcool, não suspeitam de sua existência, estão desinformados sobre o assunto, não acreditam na recuperação dos alcoolistas e não tratam o problema com seriedade e naturalidade, pois temem “ofender” os pacientes se abordarem o assunto.

O manual do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) e da Associação Médica Brasileira (AMB) apresenta critérios de diagnósticos mais claros, mostrando diferentes graus de dependência, colocando-a como uma síndrome que surge a partir de combinações de fatores de riscos que aparecem de uma maneira distinta em cada indivíduo. Contemplam-se padrões individuais de consumo que variam de intensidade ao longo de uma linha contínua, trazendo problemas para o indivíduo. Primeiramente, identifica-se o padrão de consumo de uma pessoa e depois se determina sua gravidade, sendo fundamental para individualizar o diagnóstico e coletar subsídios para o planejamento terapêutico.


A representação social do alcoolismo e a intervenção do Serviço Social


Estudos realizados demonstram que a violência intrafamiliar está indiretamente relacionada com o uso abusivo do álcool. Barroso (2010) expõe que o álcool não causa violência, mas é fator agravante, embora apareça como segunda causa apontada pelas vítimas. As mulheres têm dificuldades de reconhecer a violência de seus parceiros e acabam atenuando a atitude violenta deles. Ainda segundo Barroso (2010, p. 7), “criam subterfúgios que lhes permitem justificar perante elas próprias a violência que sofrem. Essa atitude desculpabilizante contribui para inibir a reação das vítimas e prolongar a situação”.

Assim reforçamos que o comportamento violento é uma atitude socialmente apreendida e não o resultado do abuso de uma substância. Portanto, a junção dos dois fatores (álcool e violência) pode aumentar a gravidade, mas não significa que um agressor, deixando de beber, eliminará o seu comportamento agressivo.

Compreender a dinâmica de todo esse processo, bem como identificar na subjetividade do indivíduo todo um contexto social, 27 histórico e cultural fornecerá subsídios para nortear a intervenção do Serviço Social que pode evoluir para um tratamento de dependência química, mas não resolverá os problemas pertinentes à agressão que deve ser dado outro enfoque e outra abordagem terapêutica.

As representações que os alcoolistas e seus familiares têm da doença estão ligadas às suas experiências cotidianas, ou seja, são de acordo com sua maneira de viver e de encarar essa situação em sua vida. Entendemos que as representações sociais são influenciadas pelo social que intervém de várias maneiras nas cognições individuais: pelo contexto concreto em que estão situados os grupos e as pessoas, pela comunicação que se estabelece entre eles e pelos códigos, pelos valores e pelas ideologias ligadas a posições individuais.

Representação social é definida por Moscovici apud Schulze (1988, p. 5) como “um conjunto de conceitos, afirmações e explicações que se originam no dia a dia, no decurso de comunicações interindividuais”. A forma que a pessoa dá significado à determinada situação de sua vida é exatamente a sua representação social, porque toda a sua interpretação é fruto de suas relações com o mundo e com os outros. A necessidade de tornar algo estranho, desconhecido em algo familiar e significativo na vida é o que origina as representações sociais.

Porto e Knabben (1994) realizaram um estudo com casais com relacionamento conjugal violento que procuravam o Serviço Social da Delegacia para atendimento. Foram pesquisados seis casais com nível de escolaridade baixo. A representação social acerca do alcoolismo verificada nessa pesquisa foi de que não era visto como doença, no sentido a priori, que pudesse desencadear a dependência alcoólica, embora admitissem que fizesse mal à saúde. O alcoolismo era entendido como ato voluntário do bebedor, que, por sua vez, se sentia imune às consequências do álcool, porque novamente negava o vício.

A representação social de todas as mulheres pesquisadas, referente ao alcoolismo, estava baseada apenas no senso comum, na significação dada ao fenômeno a partir de experiências no seu cotidiano. Todas tinham claro que o alcoolismo era o objeto dos seus problemas conjugais, ao contrário do que pensavam seus esposos, ficando escamoteados por interesse, medo, vergonha, comodismo, na sombra de suas esposas.

As consequências do alcoolismo são visíveis no dependente, mas, via de regra, o indivíduo passa por um processo de negação em 28 que são acionados diversos mecanismos de defesa inconscientemente, justificando, assim, a procura tardia pelo tratamento.

A intervenção do Serviço Social, na medida do possível, deve ser de reflexão conjunta com a família para traçar estratégias adequadas. Consideramos que a conscientização do alcoolista, enquanto um ser doente, e de sua família só é possível quando se parte da realidade e do entendimento que eles têm do problema para se chegar a uma compreensão mais adequada da situação. A escolha do tratamento para o controle da doença dependerá da afinidade e da adequação do usuário a um determinado tipo de tratamento. Ou seja, quando o alcoolista admite que sua dinâmica de vida está sendo prejudicada pela bebida, ele consegue dar um passo em busca de ajuda especializada, favorecendo, assim, que avance para um processo de aceitação do diagnóstico, levando-o a uma possível adesão ao tratamento.

De acordo com Porto e Knabben (1994), há diferentes caminhos para se trabalhar o consumo abusivo de bebidas alcoólicas, expostos na sequência.


• Conforme o grau de dependência, pode-se abrir mão de muitas alternativas de tratamento, primeiramente se pensa em uma internação para desintoxicação.

• Os Alcoólicos Anônimos (AA), que é uma entidade que desenvolve trabalho voluntário, anônimo e gratuito, funciona por meio de reuniões entre seus membros para troca de experiências e depoimentos sobre o seu envolvimento com o álcool. Paralelo aos Alcoólicos Anônimos, há grupos de familiares o chamado AlAnon, que é um programa de doze passos para familiares e amigos de alcoolistas. Seus membros compartilham suas experiências e buscam forças e esperança na tentativa de resolver seus problemas comuns. Acreditam que o alcoolismo é uma doença familiar e que mudanças de atitudes podem colaborar com a recuperação. Também existe o grupo Alateen, que é uma divisão do Al-Anon dedicada a familiares mais jovens.

• O internamento em comunidades terapêuticas seria outra alternativa, mas somente quando o paciente estiver desintoxicado, consciente de sua dependência alcoólica e motivado para permanecer abstêmio é que poderá ter alta e continuar seu tratamento fora do contexto hospitalar. 29

• A psicoterapia de grupo tem sido indicada, uma vez que se dividem as experiências, o alcoolista não se sente diferente dos demais e se vê na obrigação de falar. Ainda a psicoterapia individual tem como objetivo diminuir o medo e as angústias que a nova realidade poderá causar.

• Pode ser feito uso da laborterapia, que é o uso de drogas que inibem a ação para beber, uma vez que o indivíduo não bebe em função do mal-estar provocado pelo medicamento. O alcoolista deve estar bem ciente das consequências do uso do álcool combinado com a medicação, pois pode levar até ao óbito.


O grau de envolvimento da família dependerá do grau de comprometimento do alcoolista. O apoio da família é essencial para o sucesso da abordagem terapêutica, bem como para a prevenção da reincidência.


Considerações finais


Embora o alcoolismo esteja muito relacionado à incidência da violência doméstica, não é certo afirmar que, tratando da dependência alcoólica, paralelamente eliminaremos a violência. O alcoolismo não é um fator determinante da violência, mas precipitante, ou seja, ele, entre outros fatores, pode contribuir para ocorrência do fenômeno e a potencialização dos seus efeitos.

Certamente que, combatendo o alcoolismo, muitos conflitos intrafamiliares cessarão e, consequentemente, diminuirá a incidência da violência, mas ela só se extinguirá a partir da mudança de mentalidade, do respeito mútuo e da igualdade de direitos.

Finalizando, acreditamos que o combate ao alcoolismo deve se iniciar com um trabalho preventivo. A intervenção nas fases iniciais pode contribuir para a prevenção. Essa ação deve ser compartilhada com o grupo familiar, que precisa receber orientações nos processos de acolhimento. Ressaltamos também a importância do tratamento especializado que se preocuparia com aspectos de esclarecimento sobre a doença em escolas, associações, clubes, enfim, em todas as instituições que contribuem para a formação e a socialização dos indivíduos. Ressaltamos ainda que é necessário elaboração de políticas públicas que privilegiem o combate do alcoolismo de forma comprometida e articulada.

Contribuir para o processo de conscientização da sociedade de 30 que o alcoolismo é um problema de saúde pública é um grande desafio que se apresenta para o os profissionais que atuam na área da Saúde.


Referências

BARROSO, Zélia. Violência nas relações amorosas. Disponível em: . Acesso em: 1 nov. 2010.

CREMESP. Usuários de substâncias psicoativas. Abordagem, diagnóstico e tratamento. 2010. Disponível em: . Acesso em: 5 nov. 2010. D’ALBUQUERQUE, Luiz A. Carneiro; SILVA, Adávio de Oliveira. Doença hepática alcoólica. São Paulo: Sarvier, 1990.

MASUR, Jandira. A questão do alcoolismo. São Paulo: Brasiliense, 1984.

PORTO, Eliane O.; KNABBEN, Júlia de Macedo. A representação social em casais com relacionamento conjugal violento, atendidos pelo Serviço Social da 6ª Delegacia de Policia da Capital – SC. 1994. 59 f. Monografia (Graduação em Serviço Social) – Universidade do Sul de Santa Catarina, Florianópolis, 1994.

SCHULZE, Clélia Maria Nascimento. A contribuição das representações sociais cognitivas no diagnóstico e intervenção junto ao paciente canceroso. Florianópolis: UNISUL, 1988.




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